sexta-feira, 7 de agosto de 2015

hoje navego
amanhã vivo
alterno
porque impreciso
todo dia
tem o trem inexorável

- o trem da travessia
que me rasga
correndo

no centro
e na periferia

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Ato I - Antes do ato (des)atinado

Atrás da coxia
pela fenda o olhar da Lua
a menina
com a mãe
nasce

nasce frágil, crua
da mão da mãe
a culpa
das duas
primeira pitada
de menina nua.
depois
panela
agulha

pernas fechadas
embaixo
da saias

No camarim
mirim ensaia:
o olhar languido
o silêncio
o sorriso
uma língua alheia
agora, sua.

- Respira.
Repassa o suspiro
Repassa a recusa
Repassa a saia - curta
Repassa, passiva
- Respira.

- Abre-se às cortinas.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Assédio

Cercada de porcos, com olhos de porcos mirando exaltados meu sexo cego
Vai ver viu
o que não devia.

Cercada de porcos, com focinhos de porcos, farejando molhados meu sexo seco
Vai ver viu
uma canela do século XXI

- Piada?

Cercada de porcos com patas
bifurcadas
em cujo meio
- se encaixam seus paus masturbáveis e o meu sexo alheio -
desapropriado de mim.

Assim, o porco chafurda onde afoga-me a culpa

mea culpa:

Porque vim assim?!?
porque trouxe comigo
apenas
pernas-tetas-barriga
porque as trouxe com a buceta,
ao metrô, à escola, ao trabalho?!?

é o CARALHO!

Cercada de porcos por todos os lados.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

LUZES CURO

... de dia
todo dia
LUZ
sou martelo
sou adulto
desdobro
dia todo
- cansa...

... de noite
meia-noite
ESCURO
sou sorriso
escorregadio
tudo dança
viro abóbora
voo criança...

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Palavras mudas escritas escondidas para não serem ditas

A poeta e a profeta se encontraram para parafrasear.
Sobre as suras e os salmos versa a poeta
enquanto
sobre o ranço da alma secreta a profeta versa.

Vice-versa.

Na conversa
vice-Deusa, a profeta encaminha a mensagem
enquanto
versa a poeta sobre a dança, à distância
- da poeta e da profeta -
separadas pelo abissal de duas consoantes
seus sons
seus compassos
pulsos e repousos
co(n)versam.

A onda da linha do limite que as liga vibra a vida dessa dança.

A poeta e a profeta parafrasearam
pausadamente
a poesia da sua dança à distância;
desenharam
mentalmente, mas
com a linha de uma caligrafia ímpar em cada pé
a profecia-partitura impressa na pauta
impresso um conto, ponto-a-ponto,
compasso diminuto
A valsa, enfim.

Do lento da linha, do lado do passo, da pressa da partitura
de cada compasso composto
complexo
de cada cacofonia
a poeta e a profecia parafrasearam
a palavra, a fenda e a poesia.

domingo, 24 de agosto de 2014

Correnteza
de nós discorrem
pra dentro
do caldo
turbulento

Caldo de gente
caldo quente
que derrete

Faz e desfaz
o cenho
o punho
no banho
um ranço velho
já morto
se dilui dentro
do caldo
turbulento

Mas o caldo fervente
também decompõe
o que faz
e desfaz
os fatos e fatores
compositores
do Humano.

Um caldo de gente
descoberta de pano
de carne, de nos
desfeitos nós
nós diluindo-nos
Lendo-nos nus

- CORRENTEZA

de dentro do quadrado
do turbulento
do caldo
num quarto descolado do mundo
a Hidra emerge
em cada sentença
uma cabeça
a cortar, a cauterizar

- CORRENTEZA

diferentemente
a cabeça imortal
afundou
foi viver a velhice
seca
na cadeira de balanço.