domingo, 16 de julho de 2017

o segredo

pela fresta da pálpebra
vejo a FENDA

fecho o olho
e o rosto todo
vira língua

               FESTA

despejo meu desejo
no desejo que vejo

beijo
a fenda que se mostra
                                em elipses
                   se molha
                                em eclipses
                   se curva
                                e turva
                   se oferece

  a-fenda-aberta-a-fenda-fechada
                      
         PULSA no LÁBIO


                   uma
               LAMBIDA
                      .
                  uma 
              LAMBADA 
                    de
               LÍNGUA
                      .
                   uma
              MORDIDA
                

e a fenda
vibrante
já se funde

             INUNDADA

[a língua que lambe laceia linha do limite, essa safada]


a fenda aperta
contrai e solta
elétrica, percorre em trilha

                   a PERNA
                 a BARRIGA
                e a VIRILHA

agarra 
arranca ranhuras
e de saída,
explode a mão na parede

             EPLEPSIA 

de braços
de bruços
aos soluços roucos
aos trancos

           ENXURRADA

E a fenda, chocada, entumece
incha e se fecha num casulo
de coxas

[engole minha língua e já não vejo nada]

e a fenda fenece exausta

vejo agora pela fresta

uma pausa, um beijo
e não é o fim da festa

quinta-feira, 9 de março de 2017

Elegia ao Problema

o problema é pedra bruta
que tempo e silêncio, secamente,
se encarregam.
lixa lenta, farpa-a-farpa

o tempo lima e o silêncio sopra o resto
a brita perde os erres e erros. esculpida e
seca, a pedra perfeita é polida.
o problema de fato, em frente está, pronto.

de repente, do escuro um grito - segura a esfera escorregadia!
e o problema - farpudo, arisco - mesmo seco, se escorria
cada aresta, que antes travava com o problema a solução,

limada estava e diluída pelo chão. lapidar um problema
com o sal do silêncio e do tempo - tem limite.
o dilema se foi, mas o poema, mesmo na lápide, insiste.

O Destino

um bom domingo
aos valorosos homens detentores do tempo
que podem, por bem do sistema, bem desanuviados
viver

aos
que leem assiduamente jornais e portais, e examinam detalhadamente cada espaço mínimo científico de discussão, e sabem

que assistem às famosas séries inglesas, americanas, urbanas e burguesas, plugados pra fugir do próprio vão, e fogem

para frequentar disfarçadamente sedentos as noites, todas as noites convenientes, atrás de sorrisos silenciosos, que certamente virão, e se vão

que tempo que tem de viver esses homens...

de alma lavada e cabeça feita
certa
mente

[enquanto suas ex mulheres às vezes púberes rotuladas minguam e catam os cacos dos seus egos desordenados pelas escadas de casa sob os próprios julgamentos do tempo que não passa senão aos domingos desde o domingo dos tempos]

será genético?
Evolução?
ou coincidência?

é do Destino uma displicência
ou a resposta ficou
mesmo no mesmo
caco quebrado
despedaçado
daquela forma fria
da minha infância?

.. .. ..

eu sou o asfalto da pós modernidade
seco
cinza
e salpicado de chapisco
onde você anda
inconsciente
com botas ferradas
por você chamadas
liberdade
aceita o receptáculo
polpudo por natureza
sem reservas

segura o fruto bulboso
que se joga do galho
entumecido e fechado
escondido pelas folhas da floresta

advinha de dentro
o fogo da vida velada
o movimento
lento
que se projeta
do centro

suave e seguro
se oferece até que a fenda se faça turgida
e o ostíolo escancarado
mostre a fome do fruto
encarnado

vê as cascas inchadas
arregaçadas
as carnes entreabertas
o vermelho que se oferece
e o que escorre dulcíssimo
pela fenda

com a língua injetada
que acaricia
abocanhe a carne esfomeada
com a boca, com a bacia,
com o contorno da cara
deixa o cipó se enrolar no pescoço
como a mão espalmada no tronco
fazia, agarrando de baixo
os galhos esticados
e as estípulas arrepiadas
fresquinhas

aceita o desejo do fruto
de ver fundido
seu próprio vermelho
com o da boca faminta
e se delicia

bebe no fim o suco
da polpa que, devorada,
sacia.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Eu deitei pra dormir e sonhei um cenário surreal, onde você era o vidro e eu a areia da ampulheta deitada. O tempo não ia embora, nem vinha de volta. Em volta de mim, o vidro inerte apertava.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

uma mulher

uma mulher
carrega consigo um segredo

um degredo
numa cela 
solitária

escondido no canto
dos lábios do sorriso
e como um saco de pecados
mal criados
dependurados
das pálpebras
pelas esquinas
de manhã

- Esse ônibus desce a Brigadeiro até o... 683?

no horário de verão
quando a memória 
se dissipa
no sol que desce
as mulheres carregam
seus segredos
à luz do dia
até mais tarde
pelas veias 
da cidade

à noite
colocam seus segredos
pra dormir mais
cedo
e tentam sair
de si

mas os segredos
seguram
sussurram cada segundo
nos copos de bebida
nos salmos do culto
em cada encontro

tropeçam em si
ao sair
e não se livram

na madrugada
retornam
escondidas como o cenário
da cela
uma cena de fundo
na sombra

Retorno.

afago meu segredo
no silêncio do escuro
o degredo
desse caminho
no contorno dos muros
que a sarjeta sugere
já sem medo

No horário de verão
quando amanhece antes do sol
meu segredo acorda
sem despertador
calça suas próprias sandálias
e banha-se sem mim

o segredo está 
pronto para o trabalho
parado na porta
me esperando passar

(25.outubro.16
28.janeiro.17
4fevereiro17)